Apple vs Epic Games: mas afinal quem tem razão?

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Apple vs Epic Games
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A guerra judicial entre Apple vs Epic Games está ao rubro atingindo um marco significativo nos últimos tempos. Os últimos acontecimentos mostraram a juíza Yvonne Gonzalez Rogers a ouvir as alegações de cada lado. A mesma juíza sugeriu que a batalha legal entre as empresas visadas fosse levada perante um júri.

No entanto, tanto a Apple como a Epic Games recusaram um julgamento avaliado por um júri e concordaram que o caso deverá ser julgado em tribunal, numa data ainda a determinar. Isto significa que muito mais tinta e teclas irão correr no mundo da imprensa tecnológica.

Para inicio de conversa, é importante o leitor saber duas coisas: primeiro, como esta novela entre Apple vs Epic Games começou e segundo, que qualquer opinião fundamentada por mim, poderá não refletir a opinião do staff do LifePatch. O objetivo deste artigo tem como base perceber se os argumentos apresentados por ambas as empresas nesta guerra judicial, poderão trazer, ou não, algumas vantagens para nós, enquanto comuns utilizadores e clientes de equipamentos tecnológicos bem como o seu software. Vou resumir os acontecimentos desta batalha judicial, e tentar chegar ao cerne da questão.

Apple vs Epic Games

A guerra propriamente dita, começou no dia em que a Epic Games implementou uma atualização para o jogo Fortnite que possibilitou um sistema de compras da própria Epic, dentro do jogo. Dessa forma, a Epic contornava a taxa de 30% da Apple, delineada nas guidelines da App Store para compras in-app purchase (compras dentro da app) . O mesmo sucedeu com o jogo disponível na loja da Google, com a Epic a usar exatamente a mesma estratégia. Era óbvio que a Apple iria retaliar removendo o jogo Fortnite da App Store.

Sendo a mesma taxa aplicada pela Google na sua Play Store, era espectável que a Google fizesse exatamente o mesmo que a Apple. E fez. Mas a diferença é que no Android os utilizadores poderão instalar o jogo fora da Play Store, ao contrario do iOS em que tal não é possível. Depois do Fortnite ser removido da App Store, menos de uma hora depois, a Epic abriu um processo contra a Apple no Tribunal Distrital dos EUA para o Distrito Norte da Califórnia.

Apple vs Epic Games, “Round 1”

O ponto aqui é que a Epic Games já estava preparada para este movimento da Apple. O departamento jurídico da desenvolvedora do Fortnite já tinha o processo pronto contra a Apple, logo que a app fosse banida da loja. Ora é a partir deste momento que a estratégia da Epic Games começa a ganhar forma. Para “ajudar à festa” a Epic Games promoveu um vídeo e uma hashtag, “Free Fortnite”. O vídeo trata-se duma paródia ao famoso comercial “1984” da Apple contra a poderosa IBM. Com toda a honestidade, é de se tirar o chapéu à Epic Games pela forma como produziu este vídeo.

Em boa verdade, esta paródia já estava pronta bem antes do embate entre as duas empresas. Tendo em conta a qualidade do vídeo, bem como a sua narrativa, essa evidência fica clara. Era impossível criar um vídeo com esta qualidade em tão pouco tempo.

Era mais do que lógico que estes acontecimentos não passariam despercebidos e atrairiam a atenção da imprensa tecnológica mundial. Apesar da Apple ter revogado as contas de desenvolvedor pertencentes à Epic e ameaçar bloquear o Unreal Engine, motor de jogo desenvolvido pela Epic Games, o objetivo da empresa liderada por Tim Sweeney era mesmo esse, atrair a atenção da imprensa e recolher apoio do público e de outros desenvolvedores famosos, como o Spotify, Deezer, Tile entre outros.

Apple vs Epic Games, “Round 2”

Apesar de a Epic ver as suas contas de desenvolvedor encerradas por parte da Apple, uma ordem judicial forçou a Apple a adiar o bloqueio da conta do Unreal Engine. Mas essa ação não obrigou a Apple colocar de novo Fortnite na App Store. O Unreal Engine é usado para desenvolver uma grande parte de apps e jogos nas plataformas da Apple. Se porventura a justiça permitisse o bloqueio da conta Unreal Engine isso levaria a problemas catastróficos para os desenvolvedores que usam essa plataforma para criar os seu jogos. A juíza esteve bem neste ponto, não permitindo danos colaterais para os desenvolvedores que nada têm a ver com esta batalha.

Apple vs Epic Games, “Round 3”

Finalmente chegamos aos principais acontecimentos da ultima audiência, e as coisas não correram lá muito bem para a Epic Games. A juíza foi clara ao afirmar que a taxa de 30% é transversal a outras plataformas como as lojas da Steam, Xbox , PlayStation e Nintendo.

Fonte: IGN

A Epic Games refutou alegando que as fabricantes de consolas vendem os equipamentos sem margem de lucro, no entanto “não há evidencias” de tal afirmação, segundo a juíza Yvonne Gonzalez Rogers. A própria Epic Games não conseguiu provar tal afirmação. Eventualmente argumentou à base de rumores ou boatos que proliferam na internet. Além disso, a juíza fez duras criticas ao modus operandi da Epic chamando-os de desonestos.

A questão não é meramente a violação de um acordo entre as duas empresas. O argumento “a minha casa, as minhas regras”, neste caso em específico é muito redutor, porque este não é o cerne da questão criada pela Epic Games. A violação do acordo em si, poderá não ter grande impacto judicial. Uma violação dum acordo é isso mesmo, uma violação, e a partir desse momento a parte lesada age em conformidade com as regras que a própria estabeleceu. O cerne da questão é muito mais abrangente que uma mera violação dum acordo.

A Epic Games está a ser hipócrita ao questionar os 30% de taxa da App Store. Segundo o projeto com o nome Coalition for App Fairness, ao qual a Epic Games faz parte, o objetivo é claro. As desenvolvedoras querem estabelecer as suas próprias lojas dentro do ecossistema da Apple. Logicamente que dessa forma fogem às taxas cobradas pela Apple. Num dos 10 pontos abordados por este projeto, o primeiro é bastante revelador:

Nenhum desenvolvedor deve ser obrigado a usar exclusivamente uma app store ou usar serviços auxiliares do proprietário da app store, incluindo sistemas de pagamento, ou aceitar outras obrigações suplementares para ter acesso à app store.

Esta sim é a questão fundamental que tem de ser discutida. A abertura para outras lojas de apps no iOS. Agora surgem questões que poderão dividir muitos utilizadores.

  • Qual a relevância de outras lojas dentro do ecossistema da Apple?
  • Na realidade já há lojas alternativas à Play Store da Google, mas o que oferecem a mais aos utilizadores?

Na minha opinião enquanto utilizador Android, francamente não vejo vantagens nenhumas. O que existe nas lojas alternativas também existe na Play Store. Pelo menos as apps disponíveis na loja da Google passam pelo crivo da empresa, o que em teoria significaria mais segurança, embora não seja essa a realidade. A mesma lógica poderá ser usada no lado da Apple. Outras questões pertinentes:

  • Quem garante que apps instaladas fora da App Store não comprometem os nosso dados pessoais guardados no iPhone ou iPad?
  • Qual a responsabilidade da Apple em apps que não passaram no seu crivo de segurança?
  • Se porventura instalar uma app fora da App Store e tiver problemas com dados roubados ou credenciais, quem é responsável?
  • Vou processar a fabricante do iPhone ou iPad?
  • Ou processo os proprietários das lojas de apps alternativas?
  • Qual será a relação entre a Apple e outras lojas de apps alternativas no iOS?
  • Como vou conseguir levar uma luta judicial contra um proprietário de um loja de apps alternativa caso seja lesado de alguma forma?
  • Tornar-se-á o iOS num sistema vulgar igual ao Android?
  • Como isso influenciará na forma como usamos hoje a App Store e o nosso iPhone ou iPad.
  • Será que um dia, qualquer utilizador poderá baixar jogos fora da PlayStation Store, da Xbox Games Store ou Nintendo eShop e jogar nas respetivas consolas? Será difícil certamente.
  • Porque a Apple tem que fazer diferente, quando o seu modelo de negocio foi sempre assim desde a fundação da App Store em 2008?

Na realidade, atualmente não há respostas objetivas para as questões colocadas acima. Esta batalha legal poderá demorar anos e qualquer decisão judicial que venha a ser tomada poderá alterar o modelo usado pela Apple. Isso certamente irá afetar o modo como os utilizadores usam a plataforma da Apple. Será para melhor, ou para pior? Do meu ponto de vista, creio que se houver mudanças significativas neste ponto em concreto, a abertura de outras lojas de apps no iOS será como uma faca de dois gumes.

É verdade que isso permite uma maior liberdade aos seus utilizadores, mas por outro, os sistemas proprietários da Apple estarão muito mais expostos em questões de segurança. Se porventura isso vier a acontecer, caberá ao utilizador fazer as suas próprias decisões, se prefere manter-se fiel à App Store e confiar na sua curadoria para obter o melhor software, ou então navegar por lojas alternativas sem grandes garantias, de que o software que instala não traga presentes indesejados.

Em conclusão, há uma verdade absoluta nesta batalha judicial entre a Apple e a Epic Games. Nenhuma das duas está preocupada com os utilizadores, conforme apregoam. Na realidade são dois tubarões a rondar à volta dos peixinhos, (que somos nós enquanto consumidores), a lutar entre si, e nós peixinhos, somos o alimento por qual eles lutam.

E você, o que acha desta hipotética possibilidade de vir a existirem lojas de apps alternativas no ecossistema da Apple? Concorda com esta posição pouco ortodoxa por parte da Epic Games?

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Samuel Pinto

Samuel Pinto

Nascido na belíssima cidade berço, tem como preocupação a relação entre o Homem e a tecnologia. “O problema não é se as máquinas pensam, mas se os homens o fazem” - Skinner

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